quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim

Frères de Limbourg (Herman, Paul e Johan; fl. 1385-1416), Les Très Riches Heures du duc de Berry, Fólio 44v: A Natividade de Jesus. Musée Condé, Chantilly, France.

Mt 1:18-25
18 Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. 19 José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. 20 Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» 22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. 24 Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. 25 E, sem que antes a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.

Olivier de Gand e Jean d´Ypres, A Natividade, detalhe do retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra (1498‐1502). Crédito fotográfico ao Secretariado Nacional Bens Culturais da Igreja, Portugal, na sua página do Facebook, 17/12/2014.

Lc 2:1-18
1 Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. 2 Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. 3 Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. 4 Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, 5 a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. 6 E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz 7 e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. 8 Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. 9 Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. 10 O anjo disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11 Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. 12 Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» 13 De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: 14 «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» 15 Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» 16 Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. 17 Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. 18 Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Frases de Mark Twain

Twain em 1907, Foto (c) Underwood & Underwood, sob Licença Creative Commons. 
Encontrei estas frases e a foto inicialmente aqui.

"When angry, count four; when very angry, swear."
- in The Tragedy of Pudd'nhead Wilson, 1894

"Familiarity breeds contempt—and children."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Principles have no real force except when one is well-fed."
- in Extracts From Adam's Diary, 1906

"'Classic.' A book which people praise and don't read."
- in Following the Equator, 1897

"Do not put off till tomorrow what can be put off till day-after-tomorrow just as well."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Golf is a good walk spoiled."
- in Greatly Exaggerated: The Wit and Wisdom of Mark Twain, ed. Alex Ayres, 1988

"Clothes make the man. Naked people have little or no influence in society."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Everybody talks about the weather, but nobody does anything about it."
- Editorial in the Hartford Courant, Aug. 24, 1897

"Only one thing is impossible for God: To find any sense in any copyright law on the planet."
- in Mark Twain's Notebook, 1835

"Its name is Public Opinion. It is held in reverence. It settles everything. Some think it is the voice of God."
- in Europe and Elsewhere, 1923

"A gifted person ought to learn English (barring spelling and pronouncing) in thirty hours, French in thirty days, and German in thirty years."
- in A Tramp Abroad, 1880

"Against the assault of laughter nothing can stand."
- in The Mysterious Stranger, 1908

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

1.º de Dezembro de 1640: Restauração de Portugal

P O R T U G A L

(Desconheço o autor deste soberbo brasão de armas com a serpe de ouro, alada e nascente, em timbre, que tão raras vezes aparece. Note-se também os castelos que parecem mesmo castelos e não torres, como tantas vezes se vê; e não abertos mas fechados, isto é, com uma porta de ouro.)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Perdez du temps : lisez !

Percam tempo: leiam! Waste time: Read! Visto numa livraria em Angers, França. Já era tempo de alguém proclamar isto ao mundo! Foto tirada por mim próprio, hoje mesmo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Post organoléptico






Este post é para ser degustado ao natural.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Não-conto...

sem título

Era uma vez um vendedor estático. Quando lhe perguntavam o que fazia na vida ele respondia:
— Sou vendedor estático.
Eles bem-intencionadamente corrigiam:
— Ambulante, quer o Sr. dizer.
Ao que ele replicava imediatamente:
— Não, não: vendedor estático.
— E o que faz um vendedor estático?
— Vende coisas estàticamente.
Ao olhar silencioso, interrogativo e incrédulo dos interlocutores após esta lauta explicação, ele expandia:
— O que eu faço é ficar na rua muito quieto enquanto as pessoas tentam comprar-me coisas.
— Ah... E conseguem?
— Não, porque eu fico estático!
Seguia-se sempre um breve silêncio porque os seus interlocutores procuravam a pergunta seguinte, que invariàvelmente era esta:
— E o que querem eles comprar de si?
— Paciência.
— Paciência?
— Sim, paciência. Tenho muita para vender.
— E os seus clientes precisam dela?
— Oh se precisam! Nenhum a tem, daí que tantos a queiram comprar.
— E porque não deixa de ficar estático e a vende?
— Se o fizesse gastaria logo toda a paciência que teria para vender!...
E aqui o vendedor estático fazia sempre uma pausa dramática.
— Houve, porém, uma vez em que consegui, de facto, vender paciência... A uma cliente que, no entanto, a tinha em abundância. Foi a única que esperou pacientemente.
— E quanto lhe cobrou?
— Nada, a paciência vende-se de graça.

Escrito em Angers, a 19 de Agosto de MMXIV

sábado, 4 de outubro de 2014

Mark Twain filmado em 1909


Tanto quanto se sabe, é o único filme que existe de Mark Twain. Nele aparecem também as suas filhas Clara e Jean. Foi filmado pela Thomas Edison Company (não sei se pelo próprio Edison...). Existe uma versão deste filme recentemente restaurada pela mesma empresa (hoje chamada TFG Film & Tape), que recomendo, só não a coloco aqui porque a Incorporação foi desativada por pedido. Na versão restaurada a imagem foi espelhada (porque quem conhece a casa dizia que a orientação estava errada) e a velocidade corrigida. Ambos os vídeos estão sob licença padrão do YouTube.

domingo, 14 de setembro de 2014

Infusões Simples 2

As primeiras Infusões Simples podem ser lidas aqui.


1
Nem queria acreditar no que se passava no bar! A gente tem uma percepção muito diferente das coisas quando está no quarto de trás. Os gritos que se ouviam, meu Deus! O cliente não ajudava nada e ainda era preciso trabalhar um bocado. Quando finalmente saí para o bar e vi os tremoços no chão é que percebi o que se passava: era o futebol. Tinha-me esquecido...

2
Em trinta e quatro horas, Ludovico Bórgia de Lençóis tinha conseguido chatear toda a gente num raio de 3 metros à sua volta. Como é que ele o conseguiu? Muito fácil: bastou-lhe demorar esse tempo todo a falecer.

3
Não era nada daquilo, mas ela teimava que era. Acabou por conseguir, mas não era nada daquilo. Quando se começa a fazer uma coisa, dizia ela, há que acabá-la, mesmo que não se acabe o que se começou. Ela lá saberia...

4
Era uma vez um gato maltês que falava piano e tocava francês. Mas o francês não gostava muito que lhe tocassem e zangava-se. O gato maltês teve de deixar de lhe tocar. Acabou por se mudar para Toulon, já que na Valetta não havia outros franceses que ele pudesse tocar.

5
Afastado do seu posto por razões técnicas, Patrício Vaz Hotte começou finalmente a trabalhar. O que ele fazia no posto era o que estava no contrato de trabalho; o que ele fez depois disso foi tudo o resto. 

6
Carlota da Maia não tinha nada a ver com a famosa família queiroziana. Porém, dizia a toda a gente que sim. As pessoas, então, esqueciam-se de que a tal família era ficcional e ofereciam-lhe as condolências. Ela aceitava e chamava-lhes estúpidos a meia voz. Este era o seu desporto favorito!

7
Jonas Sempiterno e Bonifácio Bonnemine, inseparáveis companheiros de cavalgada, encontravam-se raramente, nunca mais de duas vezes por ano, em média, e sempre por acaso. Na verdade, nem se conheciam. Porém, nós, que somos o narrador omnisciente, sabemos que todos os dias, nos últimos 20 anos, tomavam o mesmo metro para o trabalho. Nunca falharam, mesmo em carruagens separadas, era sempre a mesma composição, à mesma hora. Sempre a mesma cavalgada, sempre companheiros inseparáveis.

8
Era uma vez um QTL. Não era um QTL qualquer, pois designava uma base genética mendeliana. Então ninguém queria saber dele e preferia fazer cruzamentos para obter dados. Certo dia, o QTL fartou-se e fez as malas. Ficou em seu lugar uma mutação, um SNP, que alterou completamente o jogo. Passou-se a jogar xadrez em vez de damas.

9
Ricardo della Genga não fazia senão chorar. Todos os choros que ele chorava tinham uma origem ridícula e uma consequência previsível: chorava quando via o chão e depois alagava tudo para não ver o chão. O choro de della Genga era, no fundo, um mecanismo.

10
Todos os dias Claudiana e Sampaio iam às compras às 8h. Nunca compravam nada, evidentemente, mas sabia-lhes bem aquela vida de desconsumistas. Já os comerciantes os conheciam e perguntavam "Então não querem descomprar nada?", ao que eles respondiam "Queremos pois! O que é que tem hoje para desvender?" E voltavam todos os dias para casa descarregados de coisas que tinham descomprado. Eram indesfelizes assim.

11
Quatro mossas tinha o carro do Pascoal Tromet. O objectivo dele era chegar às doze, mas a mulher, uma robusta e headstrong Mrs Tromet, insistia para que ele levasse o carro ao bate-chapas. Ele bem tentava esconder as mossas, ou fazê-las onde não se vissem bem, mas ela acabava sempre por dar com elas. O máximo a que ele chegou foi sete mossas. Esperemos que algum dia ele consiga o seu objectivo.

12
Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz foi reconhecido como o maior cavaleiro sem cavalo da história de Alcambra de Cima. A junta de Alcambra de Baixo tinha-lhe recusado o mesmo título porque Tito Teodoro Tremendo Taveira Truz era casado com uma senhora do Porto e o presidente da junta era benfiquista.

13
Cinco e meia da tarde e nem se ouvia fazer ruído. Podia-se pensar que era natural, mas não: era contestatário. Daí que toda a gente se tivésse posto a gritar em silêncio. Os protestos inaudíveis continuaram sem ser ouvidos pelo patronato, portanto tanto fazia gritar com som ou sem ele.

14
Paio d'Almendra comia paio de Almendra todos os dias ao jantar. Era para fazer publicidade a si próprio. Era pena que a audiência, o público alvo, fosse só ele próprio.

15
"Traste disfuncional" era o subtítulo de uma obra de Rui Pacheco Rui Paz, o conhecido artista plástico. Consistia numa velha chaleira de metal com um smartphone lá dentro (que não se via, então ninguém sabia que lá estava). Foi arrematada por meio milhão de libras na Christie's. O comprador, porém, acusou Rui Pacheco Rui Paz de fraude: o smartphone ainda funcionava (e, bem vistas as coisas, a chaleira também).

16
Henriquette du Belay-Farcie criava gatos. E vendia recheio para fora.

17
Agathe, Bernarda, Bernadette e Maria Carla eram as auto-proclamadas ABBA. OK, não era para ser a Maria Carla, mas a Ambrósia achou melhor ser comida de deuses olímpicos em vez de se prestar a chachadas.

18 Cinqüenta e duas vezes gritou "Ah e tal" e nada, ninguém o ouviu. No metro em hora de ponta as pessoas são realmente antissociais...

Tisanas Hatherlyanas 2

As primeiras Tisanas Hatherlyanas podem ser lidas aqui.


1
Olha ali! Não sabes para onde olhar, não é? Mas olha na mesma, que algo hás de ver que seja meritório de um "olha ali!" Nem tudo o que merece ser visto tem a boa sorte de ter quem diga "olha ali!" Nem estes "olha ali!" implicam que se olhe puramente com o olhar: o ouvido, o cheiro, o tocar também podem estar dentro de um "olha ali!" É preciso não simplificar. Olha ali agora! Mas olha ali!!!

2
Toque-toque-toque, lá ia ela. Tico-tico-tico, vinha de volta. Era um vai-e-vem de onomatopeias, aquela miúda!

3
Os famosos famélicos azafamados açambarcaram as açafatas com acessos de assédio sadio: sandes e açouguices sem sensaborias, se fazem favor! Azafamaram-se as açafatas assando salsichas e chouriços (num fogareiro churrasqueiro chamuscado de fuligem fulva) e ensanduichavam sandes com quantas carnes cabiam nas carcaças de côdea crespa que seguiriam sempre sucintas das açafatas açambarcadas para os já familiares famosos famélicos azafamados.

4
Quomodo vales? Pergunta fortemente romana, mas que de pouco serve hoje em dia porque pouca gente fala romano, quero dizer, latim.

5
Era uma vez um senhor de nome Barnabé Bastos do Bom Sucesso. Nada mais a dizer, esse senhor foi uma vez e pronto.

6
Listagem de coisas: uma torre de Londres em miniatura; um carro telecomandado velho e sem pilhas; um teclado cinzento dos anos 90; quatro pares de meias pretas; duas canecas partidas; uma cadeira e um banco; e o proverbial elefante do Mário-Henrique.

7
Três personagens inócuos:
Um. Waldeck Paulo-Pais dormia a sono solto quando acordou. Òbviamente: não podia estar a fazer outra coisa antes de acordar.
Dois. Godofredo Pasmo descascava cebolas como se disso dependesse a sua próxima refeição. E dependia mesmo...
Três. Almeida Simplesmente era um sujeito pacato. Porém, quando lhe subia a mostarda ao nariz ficava pior que uma noz moscada.

8
Copos de vidro serviam para estilhaçar, mas os de plástico para amachucar. Nem que se quisesse, nunca ninguém conseguiu estilhaçar um copo de plástico, nem amachucar um copo de vidro.

9
Não havia quem dissesse que ela não era uma senhora de bem. Não, não havia. O que havia era quem dissesse que ela era uma senhora de bem, ponto. A grande chatice é que ela era uma pessoa insuportável e ninguém parecia notar!

10
Nem João Tão sabia o que havia naquele livro, nem Carlota Tanta lhe podia desvendar que naquele livro não havia nada.

sábado, 3 de maio de 2014

Lia Altavilla (soprano) e Carla Seixas (piano) interpretam Francisco de Lacerda


Da colecção "Trovas para voz e piano" (publicadas pela Fundação Calouste Gulbenkian na Portugaliae Musica, vol. 24, Lisboa, 1973) do compositor açoriano Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (1869-1934). A deliciosa letra original desta "trova" vem do cancioneiro popular português:

A mulher do meu vizinho 
É uma santa mulher: 
Dá os ossos ao marido 
E a carne a quem ela quer. 

O marido, coitadinho,                [interpretação genial!]
É também um santo homem: 
Não confessa nunca, nunca, 
Os desgostos que o consomem. 

Vídeo sob Licença do YouTube Padrão, reproduzido no canal YouTube do Movimento Patrimonial para a Música Portuguesa (MPMP) com autorização das intérpretes.

Mais Frases de Oscar Wilde

Oscar Wilde Action Figure, copyrighted by Accountrements. 

"He hadn’t a single redeeming vice."

"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends."

"He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realize."

"He must have a truly romantic nature, for he weeps when there is nothing at all to weep about."

"He was always late on principle; his principle being that punctuality is the thief of time."

"How can a woman be expected to be happy with a man who insists on treating her as if she were a perfectly normal human being?"

"How marriage ruins a man! It is as demoralizing as cigarettes, and far more expensive."

"How strange a thing this is! The Priest telleth me that the Soul is worth all the gold in the world, and the merchants say that it is not worth a clipped piece of silver."

"I always like to know everything about my new friends, and nothing about my old ones."

"I am not young enough to know everything."

"I can believe anything as long as it is incredible."

"I have nothing to declare except my genius."

"I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best."

"I hope you have not been leading a double life, pretending to be wicked and being really good all the time. That would be hypocrisy."

"I must decline your invitation owing to a subsequent engagement."

"I never travel without my diary. One should always have something sensational to read in the train."

"I put all my genius into my life; I put only my talent into my works."

"I was working on the proof of one of my poems all the morning, and took out a comma. In the afternoon I put it back again."

"I do not approve of anything that tampers with natural ignorance."

"I like men who have a future and women who have a past."

"I never play cricket. It requires one to assume such indecent postures."

"I suppose society is wonderfully delightful. To be in it is merely a bore. But to be out of it is simply a tragedy."

"If one cannot enjoy reading a book over and over again, there is no use in reading it at all."

"If one plays good music, people don’t listen and if one plays bad music people don’t talk."

"If you are not too long, I will wait here for you all my life."

"Illusion is the first of all pleasures."

"In America the young are always ready to give to those who are older than themselves the full benefits of their inexperience."

"In England people actually try to be brilliant at breakfast. That is so dreadful of them! Only dull people are brilliant at breakfast."

"In every first novel the hero is the author as Christ or Faust."

"In married life, three is company and two none."

"It is always a silly thing to give advice, but to give good advice is fatal."

"It is a very sad thing that nowadays there is so little useless information."

"It is absurd to divide people into good and bad. People are either charming or tedious."

"It is better to be beautiful than to be good. But... it is better to be good than to be ugly."

"It is better to have a permanent income than to be fascinating."

"It is dangerous to be sincere unless you are also stupid."

"It is only an auctioneer who can equally and impartially admire all schools of art."

"It is only shallow people who do not judge by appearances."

"It is perfectly monstrous the way people go about nowadays saying things against one, behind one’s back, that are absolutely and entirely true."

"It is very vulgar to talk about one’s business. Only people like stockbrokers do that, and then merely at dinner parties."

"It is what you read when you don’t have to that determines what you will be when you can’t help it."

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre a Ciência Medieval


BBC Terry Jones' Medieval Lives - The Philosopher, o episódio sobre a Ciência Medieval da estupenda série de Terry Jones (aconselho-a toda, absolutamente, são 8 episódios, de 2004). Aí se vê que nem os medievais pensavam que a Terra era plana, nem a Igreja era contra a Ciência. Hei de escrever um post longo sobre a Ciência (particularmente a Biologia) Medieval um dia destes. Vídeo sob licença do YouTube Padrão.

domingo, 2 de março de 2014

Michel Corboz dirige Händel e Bach

Com o Ensemble Lausanne.


Dixit Dominus de Georg Friedrich Händel.


Missa em Sol menor BWV 235 de Johann Sebastian Bach.

sábado, 1 de março de 2014

Três de Mário Quintana

Bilhete (Esconderijos do Tempo, 1980)
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

A Arte de Ser Bom (Espelho Mágico, 1951)
Sê bom. Mas ao coração
Prudência e cautela ajunta.
Quem todo de mel se unta,
Os ursos o lamberão.

Poeminha do Contra (Prosa e Verso, 1978)
Esses todos que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Citações Literárias

"(...) the idler is an adventurer in the face of death, a crusader against the dictate of haste. (...) the joy of wasting time."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 171, Amadeu do Prado's speech.


"The black silence of the grand piano filled the room."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 214.

"We give them a piece of our mind, as they say in English. That's the only good thing I brought from that absurd country."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 362.

"[She] spoke the harsh Spanish words with a remnant of Portuguese softness."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 415.

"He wasn't one for sightseeing. If people gathered around something, he tended to keep his distance; that equated with his habit of reading bestsellers only years later."
- Pascal Mercier, in Night Train to Lisbon, 2004 (English translation 2008), p. 417.

"— Tem um escudo para eu meter no juke box?
Deu-lhe um escudo. Chegam até mim os sons metálicos do aparelho. (...) É uma daquelas canções espanholas que se caracterizam por serem iguais a todas as outras canções espanholas. (...) Deus mete-nos em cada uma! Estou outra vez a ser injusto. (...) Não há dúvida de que Deus, a existir, não nos vinculou a nenhum caminho. Deixou-nos a liberdade de escolha. Foram os homens que depois vieram tirar essa liberdade que Deus nos dera. Mas quais homens?"
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, pp. 42s.

"A Fernanda sai do quarto. Vejo nos seus olhos que acabo de cometer um crime. Matei qualquer coisa que dificilmente poderei ressuscitar. Matar, matar seja o que for, é horrível."
- Luís de Sttau Monteiro, in Um Homem Não Chora, 1961, p. 101.

"Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte."
- Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser, 2004, p. 67.

"Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis que complicadíssimos problemas de álgebra. Se a álgebra é uma religião rigorosa, a poesia será uma religião excessiva."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 91.

"Bloom sabe bem que só é material e só existe aquilo que pode ser colocado debaixo dos pés de uma mesa para a endireitar. E um frase, por mais espessa e sólida que seja, nunca reequilibrará o mais leve desencontro entre o mobiliário e o chão."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 93.

"Procuro uma mulher, disse Bloom, ou então a sabedoria."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 99.

"Ah, Paris! Em mais nenhuma cidade se está mais perto de Paris que em Paris. Daí a sua grandeza."
- Gonçalo M. Tavares, in Uma Viagem à Índia, p. 102.

"Sometimes the things of this world are less beautiful than their shadows."
- Benjamin Hale, in The Evolution of Bruno Littlemore, p. ?.

"It is a great nuisance that knowledge can only be acquired by hard work."
- W. Somerset Maugham, in Ten Novels and their Authors, p. 8.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Reavivar o blog...


Cá está, vou finalmente tentar reavivar este blog, desfalecido há tanto tempo. Talvez se note pouco, mas tem posts novos, renovação de alguns antigos, novos links, renovação e estandardização de tamanhos, grafias e símbolos e muitos links obsoletos removidos. Mantenho o aspecto e o esquema, gosto deles assim. Tenho bastante Saber novo para tirar da gaveta, espero ter tempo de o colocar aqui durante este ano de 2014.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

John Eliot Gardiner conta histórias da vida de Johann Sebastian Bach (com muita música!)

Um documentário absolutamente extraordinário da BBC (2013). Este vídeo está sob licença padrão do YouTube. Também aconselho a série de documentários de Charles Hazlewood para a BBC sobre Händel e Haydn.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ligações Desalojadas

The door knocker of Durham Cathedral [personal photo].

Tal como já tinha feito antes, vou deixar aqui uma lista de ligações e blogues, anteriormente mantidos nas listas à direita, e agora desalojados por falta de uso, falta de posts novos ou desaparecimento puro e duro, mas cujo historial me faz querer manter, et caeteraet caeteraet caetera... Posso sempre querer bater-lhes à porta, nevertheless...

Kairos - Revista de Filosofia & Ciência
Gratuito (Lisboa)
Google Art Project
Escrita Criativa
Shvoong (miguelpires)
Bestiário - Revista de Contos
Contos de Coral
Portal da Literatura em Português
Recanto das Letras
shortstories
Academic Earth
Coursera
Khan Academy
Open Culture - Free Online Courses

http://escreverescrever.blogspot.pt/
http://elascomoscopos.blogspot.pt/
http://vimdapraia3cordoescolhi.blogspot.pt/
http://trio-musique-en-fete.blogspot.pt/
http://duvidavidando.blogspot.pt/
http://cronicasparamaistarderecordar.blogspot.pt/
http://cmafonso.wordpress.com/
http://desentropiando.blogspot.pt/
http://thinklaughing.wordpress.com/
https://pensarir.wordpress.com/
http://coreslunares.blogspot.pt/
http://nao-quero-sair-da-minha-nuvem.blogspot.com/
http://ossosoficio.blogspot.pt/
http://textosparasonhar.blogspot.pt/

A Alta de Coimbra Reconstituída

Eis uma estupenda reconstituição 3D da Alta de Coimbra desaparecida, como ela era antes das demolições nas décadas de 1940 e 1950. Trata-se da dissertação de Mestrado em Design e Multimédia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, de Joaquim Júlio Magalhães Borges. Eis aqui o website com todo o trabalho, com o texto da dissertação e uma apresentação disponíveis para download. O vídeo (de 16 de Setembro de 2013) encontra-se sob Licença de Atribuição Creative Commons (reutilização permitida).



Naturalmente, esta é uma reconstituição do edificado na Alta como ele era imediatamente antes das demolições, quando os colégios já há mais de 100 anos que tinham sido suprimidos, mas os edifícios que foram dos colégios ainda lá se encontravam grandemente intactos, apenas com outras funções. Aliás, o próprio autor menciona os colégios como pontos de referência. Assim, também se pode ler este vídeo da perspectiva dos colégios:

- a Sé Nova corresponde, evidentemente, à igreja do Colégio de Jesus, extinto em 1759 com a expulsão dos jesuítas;

- o Governo Civil de Coimbra estava, na altura das demolições, instalado no edifício que tinha sido do Colégio de São João Evangelista, dos padres lóios, extinto em 1834;

- "a Bastilha" é a alcunha do edifício onde antes esteve o Colégio de São Paulo Eremita, extinto em 1834 (o porquê da alcunha pode ser lido aqui, sob o verbete "Tomada da Bastilha");

- o Museu de Antropologia da Universidade de Coimbra foi instalado nos finais do século XIX no edifício que tinha sido do Colégio de São Boaventura, na Alta (não confundir com o Colégio de São Boaventura dos Pimentas, na Baixa; ambos extintos em 1834);

- no Paço das Escolas, o longo edifício à direita (para sul) da Porta Férrea é o do Colégio Pontifício e Real de São Pedro, extinto em 1834, mas cujo edifício felizmente ainda hoje existe;

- o edifício da Faculdade de Letras foi construído nos finais do século XIX no exacto local onde antes tinha estado o edifício do Colégio Real de São Paulo Apóstolo, extinto em 1834;

- o Hospital dos Lázaros esteve, de facto, e após outras moradas, no edifício que tinha sido do Colégio das Ordens Militares (extinto em 1834), mesmo ao lado do castelo de Coimbra (este, já muito modificado aquando das demolições, ainda se vê neste vídeo);

- o edifício do que tinha sido o Colégio de São Jerónimo (extinto, bien entendu, em 1834) ainda hoje lá se encontra assim mesmo como está no vídeo, à excepção do arco que o ligava ao castelo.

Remeto, para mais pormenores sobre os edifícios dos colégios, para o post Colégios Universitários em Coimbra, neste mesmo blog (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); e também para Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...).

Canção Excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.

Cecília Meireles, in Vaga Música, 1942

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Colégios Universitários em Lisboa

Este post vem no seguimento de outros sobre colégios neste mesmo blog: Colégios Universitários em Coimbra (tradução inglesa em The Lost Colleges of the University of Coimbra); Colégios Universitários em Coimbra (mais uma actualização...); e Universidades em Portugal. Vale também a pena consultar o post seguinte A Alta de Coimbra Reconstituída.


Não foi só em Coimbra que apareceram colégios universitários, nem estas instituições começaram apenas no século XVI. Na verdade, após a fundação da Universidade em Lisboa (1290) apareceram nessa cidade estruturas semelhantes a colégios. A primeira, logo em 1291, consistia numa provisão para 6 escolares pobres estipulada por Dom Domingos Anes Jardo (12??-1293), 14.º bispo de Lisboa, a ter lugar no Hospital dos Santos Paulo, Elói e Clemente, em Alfama, que o mesmo bispo fundara. Não era um colégio independente, visto que estava inserido numa estrutura de assistência alargada (um hospital, à época, não servia apenas para tratar doentes, mas também para albergar, alimentar, e oferecer suporte espiritual cristão a quem de tal necessitasse [1]), mas tem as características dos colégios para escolares pobres que se fundaram mais tarde tanto em Lisboa como em Coimbra (por exemplo, o Colégio de São Pedro em Coimbra), isto é, rendimentos próprios deixados por um benemérito, um número definido de escolares e um programa minucioso quanto à rotina e ao que deveriam estudar. Neste caso, a provisão do bispo definia que 4 escolares estudassem as Artes (Gramática, Lógica e Filosofia Natural) e Medicina; e 1 escolar estudasse Teologia e 1 estudasse Direito (ou 2 Teologia). Naturalmente, os escolares eram clérigos ou preparavam-se para o ser. Não se sabe como se processou a assistência aos escolares quando a Universidade esteve em Coimbra entre 1308-1338 e 1354-1377, mas ainda há notícia desta provisão para escolares no dito hospital no ano de 1464.

Lisboa medieval vendo-se a cerca fernandina (1373-1375) [2].

Em data desconhecida mas certamente aquando do retorno da Universidade a Lisboa (1338), Mestre Pedro de Lisboa (1???-13??) estabeleceu uma provisão para escolares pobres em tudo semelhante à de Dom Domingos Anes Jardo. Estava anexa à capelania do altar de Santa Ana na Igreja de São Lourenço em Lisboa, mas creio que não se sabe onde os escolares colegiais tinham alojamento, se num hospital ou casa própria. Ainda há referências a este colégio em 1497, quando a dita capelania pede ao papa dispensa dos seus compromissos para com os escolares, coisa que já o hospital de Santo Elói tinha feito em relação ao seu colégio por várias vezes entre 1440 e 1448. Parece que as obrigações litúrgicas e o desvio de rendimentos para outros bolsos, assim como as frequentes mudanças da Universidade de Lisboa para Coimbra e vice-versa impediram os colégios de se imporem como estruturas universitárias fortes [3].

Em 1383, Dom Afonso Correia (13??-1397), 19.º bispo da Guarda, pediu autorização ao rei para aplicar algumas das rendas do seu bispado na criação de um colégio para 12 escolares pobres, incluindo um orçamento para a compra de livros. O rei Dom Fernando I, que se interessava genuìnamente pelos estudos [4], deu-lha em carta de 28 de Março desse ano, mas morreu em Outubro e, na crise dinástica que se seguiu, Dom Afonso Correia tomou o partido de Dona Beatriz, pelo que haveria de ser deposto do bispado da Guarda em 1384 e, após a batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), de se retirar para Castela, onde foi bispo de Segóvia até à morte [5]. Tudo isto faz supor que Dom Afonso Correia nunca tenha chegado a implementar o seu colégio em Lisboa.

Em 1426, o infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, escreveu, de Bruges, uma carta ao seu irmão, o infante herdeiro Dom Duarte, na qual o aconselhava a criar um conjunto de colégios orbitando a Universidade, à semelhança do que acontecia em Paris e em Oxford (e também em Cambridge, Toulouse, Bologna, e Montpellier [6]). Esses colégios deveriam ser criados pela Universidade (nas 5 ou 6 igrejas que já lhe pertenciam), pelos bispos (para escolares das suas dioceses) e pelas ordens religiosas (menciona em particular os dominicanos, os agostinhos e os cistercienses). Ao todo queria Dom Pedro 10 ou mais colégios universitários, tanto para ricos como para pobres (mas os ricos pagariam a sua estadia do próprio bolso). Os escolares colegiais deveriam dormir cada um em sua cela, tomar as refeições todos juntos e respeitar uma clausura (isto é, que cumprissem horários rígidos, incluindo a proibição de sair à noite), tudo como se fazia nos mosteiros; deveriam ser regidos por um mestre e ter um capelão que lhes desse os sacramentos. Tudo isto teria o objectivo de produzir bons eclesiásticos "e asy creçerião os leterados e as sçiençias" [7]. Na prática, nem o rei Dom Duarte I (rei 1433-1438), nem o próprio Dom Pedro quando foi regente do reino (regente de facto 1439-1448) implementaram quaisquer colégios universitários. Apesar disso, é interessante notar que Dom Pedro se interessou mesmo pelos estudos em Portugal, de tal maneira que fundou uma segunda Universidade em Coimbra em 1443, doando-lhe bens e rendimentos, mas esta não sobreviveu à morte do seu patrono em 1449 [8].

Infante Dom Pedro, 1.º duque de Coimbra, segundo uma interpretação possível dos painéis de Nuno Gonçalves (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa).

Entretanto, em 1447 morreu o Doutor Diogo Afonso Mangancha, lente de Leis na Universidade, e no seu testamento de 9 de Dezembro encontraram-se instruções para a fundação de um colégio que albergasse 10 escolares pobres e 4 servidores, e cujo reitor deveria ficar sob a autoridade do reitor da Universidade. O reitor, tal como o escrivão, seria eleito entre os escolares. Mangancha deixava ao colégio casas da sua propriedade no centro de Lisboa, os seus próprios livros, rendimentos regulares, enfim, todos os seus bens e os da sua primeira mulher, Branca Anes. Os colegiais (com mais de 16 anos e já bacharéis em Artes ou já sacerdotes) seriam eleitos pela Universidade e pela viúva (Maria Dias, segunda mulher de Mangancha), sem interferência do rei [9]. As prerrogativas e a rotina dos colegiais estava também organizadas no testamento (que serviu de estatutos ao novo colégio): cada um tinha direito a duas refeições diárias, quarto individual ("câmara") apenas com uma cama e uma mesa, e deveriam celebrar missa em conjunto nos dias em que não houvesse aulas (em capela própria ou na igreja paroquial de São Jorge). As casas do colégio, para além dos dez quartos, deveriam ter uma sala-refeitório, cozinha, despensa, adega, celeiro e alojamento para os servidores (mordomo, comprador, cozinheiro e lavador); não teriam estrebaria: se necessidade houvesse, teriam de alugar uma estrebaria para pôr as montadas. É possível especular que os anteriormente mencionados colégios disporiam de uma logística muito semelhante a esta. O colégio do Doutor Mangancha funcionou entre Janeiro de 1448 e Julho de 1459, quando a Universidade anexou as casas por inactividade do colégio.

Finalmente, em 1517, o rei Dom Manuel I fundou um colégio no Convento de São Domingos, ao Rossio, para 14 frades dominicanos e 6 monges jerónimos que deveriam estudar as Artes e Teologia. Às suas custas, o rei mandou construir novas dependência no convento para o colégio e ainda lhe instituiu um subsídio anual de 130 mil reais, 20 moios de trigo e 20 pipas de vinho. Com a transferência da Universidade para Coimbra em 1537, o Colégio de São Tomás (ou Tomé, forma arcaica do nome; por estar próximo dos dominicanos, refere-se provàvelmente a São Tomás de Aquino, doutor da igreja, e não a São Tomé Dídimo, apóstolo) saiu de Lisboa e, após uma breve estada no Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha (de frades dominicanos) entre 1538 e os finais de 1539, estabeleceu-se também em Coimbra, só sendo extinto em 1834 aquando da supressão das ordens religiosas [10].

Reconstituição virtual 3D do Convento de São Domingos (à esquerda) e do Hospital Real de Todos-os-Santos (à direita), ao Rossio, como seriam entre o ano de 1504 e o grande incêndio de 1750 [11] (Museu da Cidade, Lisboa).

Lista conjectural de Colégios Universitários em Lisboa:
1291-1464 Colégio de Santo Elói (do bispo Jardo)
1338-1497 Colégio de Santa Ana (de Mestre Pedro)
1383-1384 Colégio planeado pelo bispo da Guarda
1426-1449 Colégios planeados pelo infante Dom Pedro
1448-1459 Colégio de São Jorge (do Doutor Mangancha)
1517-1538 Colégio de São Tomé (do rei Dom Manuel I)

Ao que se pode apurar por uma breve pesquisa na Internet, os colégios universitário em Lisboa não são coisa do passado. Hoje, para alojamento, alimentação e assistência a estudantes universitários (não estou aqui a falar de colégios no sentido usual de escola privada pré-universitária), existem o Colégio Universitário Pio XII, o Colégio Universitário Montes Claros, ambos ligados à Igreja Católica, e o Colégio Universitário da Cooperação, destinado a estudantes oriundos dos países africanos de língua oficial portuguesa, assim como várias residências universitárias.

Referências:
[  ] Onde não haja indicação da referência, as informações foram tiradas do texto de Rui Lobo, As quatro sedes do estudo Geral de Lisboa (1290-1537), in António Nóvoa (dir.) e Hermenegildo Fernandes (coord.), A Universidade Medieval em Lisboa Séculos XIII-XVI, Lisboa: Universidade de Lisboa e Edições Tinta-da-china, 2013, pp. 267-304 (principalmente da secção "Os colégios", pp. 298-304).
[1] Nuno Moniz Pereira, A Assistência em Portugal na Idade Média, Lisboa: CTT Correios de Portugal, 2005, pp. 111 e ss.
[2] Imagem retirada de A. H. de Oliveira Marques, Iria Gonçalves e Amélia Aguiar Andrade, Atlas de Cidades Medievais Portuguesas, Lisboa: INIC, 1990, pp. 58-59. Disponível em RevelarLx.
[3] José Mattoso, A Universidade Portuguesa e as Universidades Europeias, p. 211, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp.193-212. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 5-29.
[4] José Mattoso, O suporte social da universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), pp. 386 e 395, in José Mattoso, Naquele Tempo - Ensaios de História Medieval, Lisboa: Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009, pp. 383-407. Este ensaio foi anteriormente publicado em História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. 305-335; e parcialmente em Penélope. Fazer e desfazer a História, 13 (1994) pp. 23-35.
[5] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 7, s/d, p. 744.
[6] José Mattoso, A Universidade Portuguesa..., p. 211.
[7] Citação de uma cópia da carta de Bruges; v. citação completa em Rui Lobo, As quatro sedes..., pp. 298-299.
[8] José Mattoso, O suporte social..., p. 390.
[9] Joaquim de Carvalho, Instituições de Cultura (séculos XIV-XVI), Projecto joaquimdecarvalho.org vida e obra, p. 3.
[10] V. Colégios Universitários em Coimbra, neste mesmo blog.
[11] Mário Carmona, O Hospital Real de Todos os Santos da Cidade de Lisboa, Porto: Imprensa Portuguesa, 1956, pp. 250-255.